Desde muito pequeno, eu sempre me culpei demais pelo que não dava certo. Desde aquela colinha que eu preparava para aquela prova que eu estava meio inseguro até o frango na final do campeonato da escola, tudo parecia motivo pra que eu me martirizasse por dias, até atingir um ponto onde não era mais possível conviver com tudo aquilo. Aí eu chorava, perdia as estribeiras, xingava todo mundo e pronto: como em um passe de mágica, as coisas pareciam voltar ao normal.
Problema é que longos 22 anos se passaram, e o Gustavo aqui continua com os mesmos pensamentos de sempre. Os problemas são outros, as situações são diferentes, mas a culpa permanece.
Me sinto culpado por não ser um bom filho, por não conseguir oferecer aquilo que meus pais esperam, culpado por não ter conseguido despertar afeto suficiente nos meus irmãos para que pudéssemos ter uma boa relação, culpado com o fracasso que é minha vida profissional, culpado por exigir demais das pessoas, por me envolver, por fazer cobranças e exigir atenção. Culpado por não ter conseguido terminar aquele game, por ter comido pouco no almoço, por ter enfrentado meu chefe quando ele estava errado. Culpado por não ser uma boa companhia quando estou triste, ou por ter sentimentos ruins como raiva e inveja em alguns momentos. Culpado pelos meus desejos, pelos meus amores e pelas minhas inconstâncias.
Culpado por me sentir culpado.
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