A gente nunca acha que está errando até alguém dizer que
errou. Talvez essa seja a máxima dos relacionamentos que terminam
inesperadamente. Tudo que é inesperado
assusta. E assusta mais ainda quando a gente precisa lidar com a ideia do inexistente.
Geralmente a gente faz muitos planos quando está com alguém.
Pode ser coisa pequena, como ir a um show na sexta-feira ou então cozinhar
aquela pizza de pão de queijo no próximo feriado prolongado. Outras vezes a
megalomania é tamanha que a gente planeja coisas maiores, como unir a vida de
vez, mesmo que essa ideia seja assustadora aos 23 anos de idade.
Só que aí vem a crise. O momento em que as coisas se perdem
e o castelo desmorona. A confiança deixa de existir, o incômodo aparece, o
coração aperta. Fica difícil perceber pra onde ir, o que fazer, como agir. Fica
difícil pensar.
Talvez o grande segredo dos relacionamentos duradouros seja
o altruísmo. Pensar no outro todo o momento, a cada ação que será tomada. Mas será mesmo que ele precisa largar tudo e
vir comigo até aqui? Amar não exige provas, motivações, satisfações. Se
essas atitudes se tornam necessárias, talvez seja a hora de repensar a relação
como um todo.
Mas aí entra um momento importante. Até que ponto podemos
separar sentimento e relação? Eu posso gostar de você e a nossa relação ser um
fracasso. Mas, será que sentimento basta? Será que o simples fato de amá-lo
consegue nos prender por anos? Será que precisamos ficar presos por um
sentimento? Não é melhor uma relação libertadora, onde compartilhar é o verbo mais conjugado? E se a gente viveu tudo isso mas está se forçando a pensar que não viveu?
A gente é egoísta por natureza e precisa lutar contra isso
todo dia. Pedir pra ficar com o último copo de suco de laranja do café da manhã
demonstra que a gente sempre está disputando espaço, seja ele simbólico ou
real. E é normal que a gente queira fugir quando nos sentimos acuados. Os
instintos são esses. Precisamos salvar aquilo que somos (ou o que ainda
restou).
Depois que tudo acaba, as horas de reflexões de nada
adiantam. A grosseria da quinta-feira pela manhã ou a discussão exagerada do
sábado a tarde não vão ser apagadas. O que foi dito, proposto, feito, não vai
voltar atrás. A traição consumada, a raiva adquirida, a grosseria gratuita,
nada disso vai desaparecer. As coisas chegam ao limite porque acumulam. E, mais
que isso, nos atingem porque não soubemos eliminá-las aos poucos.
Aí chega o momento final da história. Vale a pena continuar
lutando só porque existe sentimento? É natural que no início da crise, aquilo
que se sente seja sobreposto por aquilo que está mais vívido no momento. O que
era amor se torna ódio. O que antes era carinho se torna desprezo. Só que essa
proteção uma hora cai. E pode ser tarde demais. Tudo pode ter se perdido pra
sempre.
Sempre tem muita coisa em jogo. A gente sempre sai melhor
depois de uma crise. A gente sempre sabe onde não errar novamente. Não que isso
garanta sucesso, longe disso. Mas isso é base para um novo acordo, que pode dar
início a novos momentos incríveis.
A gente erra, mas sempre aprende a acertar. E da próxima
vez, vai ser melhor. Sempre vai.
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