“Fixar-se ao solo não é tão importante se o solo pode ser alcançado e abandonado à vontade, imediatamente ou em pouquíssimo tempo. Por um outro lado, fixar-se muito fortemente, sobrecarregando os laços com compromissos mutuamente vinculantes, pode ser potencialmente prejudicial, dadas as novas oportunidades que surgem em outros lugares” (Zygmund Bauman em Modernidade Líquida)
O pessimismo, a descrença nas relações pessoais e a volatilidade do mundo acabam afastando muita gente dos textos do polônes Zygmund Bauman. Eu mesmo, do alto da minha ignorância teórica, nunca teci grandes admirações sobre o autor. Mas, recentemente, tive acesso ao Modernidade Líquida que é considerada uma das obras mais importantes do teórico, e um daqueles estudos que procura entender os mecanismos que envolvem as relações do cidadão na sociedade dita pós-moderna (ou qualquer outra nomenclatura que você deseja inserir aqui).
O trecho lá em cima chama a atenção pra um desses mecanismos, que foi o que acabou instigando o meu pensamento nos últimos dias. É triste, mas é cada vez mais impossível não perceber que criar laços é tender ao fracasso. Se sentir bem no seu lugar, convivendo no mesmo círculo de amizades e exercendo diariamente as mesmas funções sociais parece, aos olhos da ordem social atual, resultar em um ser que perde oportunidades.
Se a propriedade que para Bauman melhor exemplifica a vida atual é a liquidez, seria então essencial adotar um estilo de vida cada vez menos fixo, relações mais voláteis e mais adaptáveis e processos sentimentais menos recorrentes? Será que é preciso estar sempre preparado para a hora de largar tudo e arriscar? Para alguém que sempre tentou criar o máximo de relações duradouras possíveis, isso é meio enlouquecedor.
As vezes eu acabo pensando que o melhor seria poder ser adaptável. Largar tudo e ir por aí pode nos revelar um novo mundo. Novo mundo que, possivelmente, não será mais fácil (ou melhor) que o velho que você deixou para trás, mas um mundo que pode trazer uma quantidade de experimentações e experiências que a segurança da vida “cotidiana” parece incapaz.
É lógico que Bauman estava se referindo a processos mais amplos, mas será mesmo que não dá pra realizar relações entre suas afirmações e os aspectos mais simples e essenciais da vida diária individual atual? Creio que sim.
“Qualquer rede densa de laços sociais, e em particular uma que esteja territorialmente enraizada, é um obstáculo a ser eliminado”.
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