Para alguns, a cultura é algo dispensável. Séculos de história escorrem pelas mãos e criam-se licenças pra se dizer o que quer, quando quer e como quer. É assim que age uma parte da imprensa, que parece não ter qualquer tipo de consciência social, histórica e, porque não, política.
Atualmente, uma questão que se enquadra nesse tipo de senso comum idiotizado é a ideia perpetuada de que as reservas indígenas são entraves ao desenvolvimento do país. Mais do que mero fruto de uma direita absurdamente arrogante e prepotente, esse tipo de ideia vem de uma característica “aculturadora”, que parece ter ficado preso ao nosso sangue – herança de nossos “bravos” colonizadores.
O trecho abaixo é do blog do jornalista Reinaldo Azevedo, integrante do portal Veja.com:
Sim, é necessário respeitar os índios que lá vivem, tentar convencê-los, compensá-los por eventuais perdas, sei lá o quê. Se, no entanto, eles se negarem a sair de uma área que será essencial para a construção da usina, o que vocês querem que eu diga? Terão de ser tirados de lá. Se vocês quiserem, lamento, choro, fico triste, porque sou um homem bom, como Marina Silva, mas terão de ser tirados. No limite, sou obrigado a lembrar que, tivessem eles vencido a batalha há uns 500 anos, a história seria diferente. Mas não venceram. <Matéria completa aqui>
O texto se refere a determinação feita pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão da OEA, que pedia o fim das obras da Usina de Belo Monte, dito como uma das principais obras integrantes do PAC. A ideia aqui nem é levantar o mérito da questão da implantação da usina, mas sim protestar contra uma visão absurda de que a cultura indígena (e consequentemente seus ideais, suas áreas de ocupação seculares, seu estilo de vida) é algo pictórico, irrelevante e inferior ao modo de vida branco.
O título lá em cima é uma referência a um dos episódios mais grotescos da história brasileira. Em 1550, a corte francesa assistiu, em Rouen, situada na Normandia, uma encenação de uma batalha entre índios tupinambás e tabajaras (a qual chamavam erroneamente de tupinambos e tabajeres). Na apresentação foram “utilizados” um grupo de cinquenta índios recém-capturados em terras brasileiras e mais um grupo de marinheiros franceses. Dizem que a apresentação terminou ao som de um Mon amour, c'est si beau! deflagrado pela então rainha Catarina de Médici, tamanho foi o espanto e a surpresa após tanta... excentricidade, como relatam alguns historiadores.
O que os dois fatos tem em comum? São duas visões sobre um mesmo problema: a necessidade da perpetuação de uma imagem que prega a cultura indígena como inferiorizada, e portanto, de menor valor do que a cultura produzida por nós, brancos. Retirá-los de suas terras para construir o que quer que seja é um mal necessário, exatamente igual a escravidão imposta e o extermínio foram na época da colonização.
Esses seres que vão fazer suas danças e rituais em outro lugar!
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