sábado, 29 de outubro de 2011

Sobre sentimentos e narizes torcidos

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As vezes eu sinto que algumas (talvez muitas) pessoas torçam o nariz vez ou outra quando sou, digamos assim, um pouco mais transparente do que deveria. Sempre carreguei comigo essa marca: nunca consegui deixar de dizer por aí aquilo que sinto ou o que percebo sobre a vida alheia. Não vejo isso como algo exagerado ou prejudicial, vejo como uma característica muito arraigada à minha personalidade.

Sei lá, as vezes até parece que sensibilidade virou defeito e que estar imune a tudo o que acontece ao redor é a fórmula perfeita para ser bem aceito. Não se importar parece pré requisito para popularidade, boas relações e relevância. Sentimentalizar qualquer esfera da vida cotidiana parece merecer meia dúzia de narizes torcidos ou alguns segundos de vaias incessantes.

As vezes eu queria entender porque é fraco quem chora, porque é ridículo quem diz que ama, porque é bobo quem confessa que alguém é importante pra sua vida. Por que será que é difícil entender que quando se amplia o espectro das relações, mais e mais vem junto? Vem mais carinho, mais compreensão, mais zelo. Vem junto também um bocado de respeito e uma grande quantidade de admiração.

Eu admiro quem sabe aquilo que sente (ou que nem sabe tanto assim, mas pelo menos arrisca dizer que sabe).

Também admiro aquele que só diz o que sente quando acumula coragem suficiente pra romper a barreira da vaidade e confessar, entre um abraço e outro, que você faz um bem danado.

Nada de borboletas no estômago ou de corações acelerados depois de grandes juras de amor. O mais legal é quando você ouve, assim sem querer, que você é importante e que ainda dá pra fazer um monte de coisas juntos.

Um monte de coisas embebidas em sentimentos que podem até ser bobos para alguns, mas pra mim são uma das coisas mais importantes dessa vida.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Charlie Brown, dia das crianças e a estética da melancolia

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Lucy: Olhe de outra maneira, Charlie Brown, nós aprendemos muito mais das falhas do que das vitórias.
Charlie Brown: Isto me faz a pessoa mais esperta do mundo.

snoopy-2Amanhã é dia das crianças. É engraçado pensar que, sei lá, dez anos atrás, eu só queria que o dia 11 passasse bem rápido pra poder saber qual seria o meu presente no dia seguinte. Hoje, olhando lá pra metade dos anos 90, é impossível não sentir aquela horrível sensação de saudosismo que chega a apertar a garganta. Tudo parece tão mais fácil quando se ainda é criança, ainda mais depois que você cresce. Quando se é pequeno, o mundo parece muito menos complexo, a vida parece menos exigente e as obrigações são menos sufocantes. A gente vive muito mais e se preocupa muito menos.

Junto com esse punhado de lembranças, veio também uma memória extremamente nítida. Dessa eu lembro bem: outubro de 1996, quando eu tinha apenas sete anos. Uma tia minha, daquelas que só aparecia em datas comemorativas, me presentou com um VHS que tinha dois ou três episódios de Snoopy, aquela adaptação dos quadrinhos do Schulz para o mundo da animação. Cara, eu devo ter visto aquilo umas cinquenta, cem vezes.

Não consigo lembrar muito bem o que me cativou, mas acho que foi a estética simples, o traço característico, a sobriedade e, não tem como não citar, a melancolia. É bem possível que na época eu não tenha percebido por quais motivos eu gostava tanto de Charlie Brown, até porque quando se é criança não há necessidade alguma de encontrar motivos para os nossos gostos. Isso é coisa de adulto.

Depois dessas lembranças – Gustavo, sentado no sofá vermelho da sala de casa (aquele que tinha uma manta xadrez jogado por cima pra esconder os rabiscos de canetinha que eu tinha feito num dia qualquer) com os olhos fixos na TV, um copo de leite com bastante Nescau entre as mãos. Só levantava de lá pra rebobinar a fita e ver tudo de novo. E de novo. E de novo. Charlie Brown me fascinava, me inspirava, me encantava. Eu era Charlie Brown.

Hoje, vejo que essa identificação dizia muito de quem eu era: um garoto melancólico, triste, fracassado. Pode ser que eu não tenha sido nada disso, mas é mais ou menos assim que eu me sentia. Afinal, a gente é o que outros dizem que somou ou o que a gente sente que é?

Me peguei preso a uma questão torturante: será que Charlie Brown me deixou melancólico ou eu é que gostei tanto assim do desenho por já ser melancólico? Talvez eu nunca vá saber.

O que eu sei hoje é que eu queria poder comemorar o dia das crianças de novo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O negro lá na África era um Rei

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Sobre aquele relativismo histórico que tanto aflige quem tem o mínimo de bom senso? Pois então, deixo esse samba da Tradição, uma composição fantástica de João Nogueira. “O negro lá na África era um Rei”, como bem diz essa pequena obra-prima, mostra que muitas vezes os donos da hegemonia mudam a ótica da história pra fazer valer a voz da força contra a voz da razão.

Um dia chegou o branco invasor
De armas nas mãos, brutais e cruéis
Sangue pelo chão, correntes nos pés
Vinham das galés, lamentos de dor
Mas da escravidão surgiu Zumbi que foi o rei libertador
O tempo passou
E a raça no Brasil tem uma nova cor
O samba vingou
E o negro no Brasil tornou-se o Rei Nagô

sábado, 10 de setembro de 2011

Simples assim

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Às vezes, nessa vida, a gente só precisa sair por aí pra andar, parar num lugar qualquer, tomar um sorvete, confessar angústias, apertar a mão bem forte. E aí ver que a tarde valeu tanto a pena que você queria acordar no mesmo dia pra sempre, só pra ter oportunidade de viver todas essas pequenas bobagens mais uma vez.

E o melhor é ter a certeza que ainda temos tanto tempo pra viver tudo isso…

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Notas de uma tarde sem estresse

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Hoje tentei uma coisa diferente. Sabe aquele estresse resultante de prazos apertados, confusões inesperadas de última hora e trabalho sob pressão típico de dias de fechamento? Então, hoje eu acordei pra viver um dia desses.

Mas, quase na hora de sair, tive uma ideia boba. Peguei o fone, celular e fui pro trabalho ouvindo música. Passei o dia todo com o fone pendurado, ouvindo Marcelo Jeneci com o ouvido direito e deixando o esquerdo livre pra ouvir o toque do telefone, que não parou o dia todo.

Sabe o que aconteceu? O dia foi leve. Senti como se os problemas tivessem sublimado no ritmo de Felicidade ou então de Dar-Te-Ei. Senti como se a cada nota, a cada acorde, a música invadisse minha corrente sanguínea e me livrasse de qualquer estresse.

Acho que a gente tem que ouvir mais música e reclamar menos.

Acho que a gente tem que ouvir mais Marcelo Jeneci e reclamar menos.

sábado, 20 de agosto de 2011

Não há alternativa*

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Hoje eu voltei pra casa me questionando com uma ênfase que não costumo fazer. Na minha cabeça, martelava: por que é que a gente sempre acha que não vai dar certo?

Pensei nisso depois que conversava com uma amiga sobre o levante popular em Londres, onde ambos concordamos ser sintoma de algo muito maior. Fico só esperando o dia que vai acontecer algo aqui no Brasil, ela me disse. E eu fiquei aqui pensando: nos faltam motivos?

Não, SOBRAM motivos. Mas parece pairar no ar uma certeza paralisante de que nunca vai ser possível sair de onde se está. Nunca vai ser possível olhar ao longe e conquistar novos caminhos, permeados pela igualdade e pela justiça social.

Particularmente, me sinto como se estivesse anestesiado. Parece ser uma mistura de comodismo, desesperança, falta de vontade… e infelizmente uma mágica certeza de que não há alternativa.

É, não há.

*A frase foi inspirada naquela proferida tantas vezes por Margareth Thatcher ao se referir ao neoliberalismo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

“E o Gonzaga da sanfona vira o rei do meu Sertão”

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UnidosdaTijuca2012Em 2012, a Unidos da Tijuca homenageia Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião em seu enredo “O dia em que toda a realeza desembarcou na Avenida para coroar o Rei Luiz do Sertão”. Depois de desfiles recheados de estrangeirismos, a escola aposta em um tema tradicional e tipicamente brasileiro. Será um grande desafio para o carnavalesco Paulo Barros, conhecido por sua estética pós-moderna e vanguardista.

Mas, deixemos o desfile em si para fevereiro. Agora é a época em que a escola realiza a disputas para a escolha do seu samba enredo – o processo todo começa com a apresentação dos sambas, nesse sábado (20).

Como não poderia deixar de ser, já tenho o meu favorito: nenhum deles é tão bom quanto a obra abaixo, de autoria de Sérgio Alan, Zezinho Professor, Robertinho do Verdun e Fernando Moreira, figurinhas carimbadas da ala de compositores da escola e que esse ano entregaram uma obra tocante, emocionante e, não tem como não dizer, extremamente inspirada.

De maneira muito poética e fugindo dos chavões costumeiros dos enredos nordestinos, o que se vê é uma obra madura e ao mesmo tempo complexa – motivada principalmente pela melodia valente e tocante dos dois refrões.  Vale a pena “perder” uns minutinhos e perceber no samba todos os momentos incríveis da jornada do Lua, que enfrentou a seca e venceu no Rio de Janeiro, onde foi coroado “Rei do Baião”.

Expressão de um povo, como bem diz o samba, pelo Brasil, todo mundo escuta sua canção… e o Gonzaga da sanfona vira o Rei do meu Sertão!

 

Aperte o fole a festa vai começar
Tijuca vem coroar o Rei Luiz
A realeza é convidada a viajar
Sua vida é andar por esse país
Vem ver a banca no mercado popular
Quem quer? De tudo tem aqui para comprar
Seca é a saga nordestina
Sertanejo é um forte nessa vida severina
No lombo do burro, segue seu destino
O barro vira arte pelas mãos de Vitalino.

Na fé do romeiro seguir
A “meu Padim Ciço” pedir
Saúde paz e proteção
Meu canto é oração


Nas águas do velho Chico rumando pro sul
Carranca no barco balança, “em riba”, um céu azul
A chuva não vem, resseca o chão
A terra arde igual fogueira de São João
Canta, dança...folclore do nordeste
E bate uma saudade “da peste”
No rádio e na televisão, chapéu de couro e gibão
Pelo Brasil, todo mundo escuta sua canção
E o Gonzaga da sanfona vira o Rei do meu Sertão

Na “Pura Cadência” batendo zabumba
Arrasta a sandália, levanta a poeira do chão
“Lua” é o rei no centenário
Hoje o samba vai virar baião